POR QUE A CORAL-FALSA SE PARECE TANTO COM A VERDADEIRA?

As corais-verdadeiras estão relacionadas às najas, mambas e à maioria das serpentes australianas. Todas pertencem à família Elapidae e compartilham um veneno altamente tóxico, que pode ser letal a outros animais.

As serpentes da família Elapidae estão distribuídas em todos os continentes e possuem veneno muito tóxico, letal para as suas presas, podendo causar a morte de seus predadores.

Essas corais podem ser prontamente reconhecidas pelo padrão de coloração chamativo, usualmente uma sequência de anéis pretos, vermelhos e brancos. Mais de 50 espécies de corais-verdadeiras (pertencentes ao gênero Micrurus), com diferentes padrões de desenho, ocorrem na América Central e América do Sul.

Fig 1. Fotografias das espécies de Micrurus estudadas aqui.  AM dumerilii;  BM mipartido;  CM surinamensis;  DM isozonus;  EM lemniscatus;  Medemi FM;  GM spixii.  Fotografias: AC, EG, JPHG;  D, Jairo Maldonado-García.
O padrão de desenho (largura, número e sequência de anéis) é bastante variável entre as espécies de corais-verdadeiras: A – Micrurus dumerilii, B – Micrururs mipartitus, C – Micrurus surinamensis, D – Micrurus isozonus, E – Micrurus lemniscatus, F – Micrurus medemi, G – Micrurus
spixii
. Fotos: Juan P Hurtado Gomez e Jairo Maldonado-Garcıa.

Os primeiros naturalistas que visitaram a América do Sul levantaram a hipótese de que o padrão de colorido conspícuo dessas corais serviria como um alerta aos predadores. Deste modo, um predador, ao ver tal cobra, reconheceria o animal como altamente venenoso e evitaria atacá-lo.

O padrão vivo de coloração com anéis pretos, vermelhos e brancos seria um sinal de alerta, “avisando” aos predadores de que o a serpente é perigosa.

Essa hipótese só foi testada na década de 1990 em um experimento que utilizou réplicas feitas com massa de modelar, permitindo deixar impressos os ataques dos predadores.

Para testar a hipótese de que o padrão de colorido das corais são menos atacados por predadores e funcionam como um alerta para eles, o pesquisador Brodie III (ver referência) confeccionou centenas de réplicas de serpentes usando massa de modelar. As réplicas foram colocadas no chão da floresta em uma localidade da Costa Rica. O pesquisador registrou menos ataques de aves às réplicas com padrão coral, em relação às réplicas controle (que imitavam uma cobra com cor uniforme). Ele também verificou que os ataques eram menos frequentes tanto no chão da mata como em um fundo branco, eliminando, assim, a possibilidade do padrão coral ser evitado por funcionar como camuflagem (isso porque os padrões de bandas ou listras podem ter essa função em ambientes visualmente heterogêneos, como é o caso do chão da mata). O experimento também constatou que a evitação foi feita apenas pelas aves (facilmente reconhecidas por marcas em forma de “V”), que possuem visão muito desenvolvida e são importantes predadores de serpentes.

Existem várias espécies de cobras inofensivas com padrão coral e sem parentesco com as corais venenosas. Usualmente são chamadas de corais-falsas.

O padrão de colorido das falsas-corais deve representar grande vantagem, pois os predadores, ao confundirem-nas com as corais venenosas, as evitariam. A estratégia de um animal inofensivo imitar outro que representa perigo ao predador recebe o nome de mimetismo.

Assim como acontece com as corais-verdadeiras, existem vários padrões de colorido entre diversas espécies de corais-falsas.

Espécies de corais-falsas dos gêneros Anilius, Erythrolamprus, Lampropeltis e Oxyrhopus pertencentes a três famílias distintas (Anilidae, Dipsadidae e Colubridae).

Em determinadas regiões geográficas em que ocorrem ambas as corais (verdadeiras e falsas), elas podem ter padrões de coloração (largura e distribuição dos anéis) praticamente idênticos.

Duas espécies de corais que ocorrem na mesma área geográfica, no sudeste e oeste do Brasil.

O ESTUDO NO BRASIL QUE TESTOU O MIMETISMO

Na Mata Atlântica da Serra do Mar existe uma coral-verdadeira (Micrurus corallinus), muito abundante na floresta e com padrão de colorido bem característico.

A coral-verdadeira (Micrurus corallinus), que ocorre na Serra do Mar, na Mata Atlântica, possui sequência de anéis pretos, separados dos vermelhos por estreitos anéis brancos.

Na mesma região, habita uma coral-falsa (Erythrolamprus aesculapii) com padrão de desenho similar. O interessante é que essa falsa-coral possui exemplares com padrões diferentes entre si, alguns menos e outros mais similares ao da coral-verdadeira (Micrurus corallinus), como mostra a imagem abaixo:

Padrões de colorido da coral-falsa Erythrolamprus aesculapii. O espécime de cima possui sequência de dois anéis pretos separados por um anel branco, os quais contactam o anel vermelho. Nos espécimes abaixo, há estreitos anéis brancos entre os pretos e vermelhos (como ocorre na coral verdadeira, Micrurus corallinus). Há indivíduos em que os dois anéis pretos se fundem parcialmente. O exemplar de baixo tem a fusão total dos anéis pretos e possui padrão de desenho praticamente idêntico ao da coral-verdadeira – veja a figura de Micrurus corallinus acima.

Diante desses padrões de colorido, um experimento similar ao descrito acima (que utilizou réplicas com massa de modelar) foi conduzido por pesquisadores brasileiros. O objetivo foi verificar se os padrões de desenho da coral-falsa (Erythrolamprus aesculapii) mais similares aos da coral-verdadeira (Micrurus corallinus) são mais evitados. Assim, os pesquisadores confeccionaram quase 5.000 réplicas para os testes, que eram fixadas no solo por meio de arames – veja abaixo:

Réplicas confeccionadas com massa de modelar para representar os diferentes padrões de desenho existentes na espécie da coral-falsa Erythrolamprus aesculapii. A réplica de baixo representa uma serpente com padrão de coloração uniforme e foi usada como controle.

Os resultados mostraram que as aves evitaram mais as réplicas com padrões corais em relação àquelas de cor uniforme, mas somente em fundos homogêneos. Porém, elas atacaram indistintamente todos os diferentes padrões de corais. Por outro lado, gambás evitaram os padrões mais similares ao padrão da coral-verdadeira Micrurus corallinus.

Réplica controle (cor uniforme) com marcas de ataque de gambá (acima) e com marcas deixadas por ave (abaixo à esquerda). A réplica do padrão coral também ilustra o registro de bicadas (abaixo à direita)

O estudo sugere que predadores oportunistas, como o gambá, podem ser importantes para seleção de padrões de colorido de corais-falsas mais similares aos das corais-verdadeiras.

O gambá pode se alimentar de animais, incluindo serpentes.

Acredita-se que, no passado, uma cobra inofensiva de coloração parecida com a de uma coral venenosa possa ter sido mais evitada. O estudo mostra que, ao longo da história evolutiva, certos predadores devem ter promovido o aprimoramento do padrão de cor dessa cobra inofensiva (falsa-coral), selecionando descendentes cada vez mais similares a uma coral-verdadeira. Ao longo de muitas gerações, a evolução construiu corais-falsas que enganam, hoje, até mesmo um bom zoólogo.

REFERÊNCIAS

Banci KRS, Eterovic E, Marinho PS, Marques OAV. 2020. Being a bright snake: Testing aposematism and mimicry in a neotropical forest. Biotropica. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/btp.12831

Brodie ED. III. 1993. Differential avoidance of coral snake banded patterns by free-ranging avian predators in Costa Rica. Evolution 47:227–235. https://doi.org/10.1111/j.1558-5646.1993.tb01212.x

Marques OAV, Puorto G. 1991. Padrões cromáticos, distribuição e possível mimetismo em Erythrolamprus aesculapii (Serpentes,Colubridae). Memórias do Instituto Butantan, 53:127–134.

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