A MARCHA DO PROGRESSO: QUAL O PROBLEMA DESTA IMAGEM?

A imagem usualmente denominada “A marcha do progresso” representa a evolução humana e é uma das ilustrações mais famosas de todos os tempos. Ela foi criada pelo artista Rudolph Zallinger para ilustrar o volume Early Man (1965) escrito pelo antropólogo Francis Clarck Howell para a série de livros de capa dura da Lifes Nature Library, publicados pela Time-Life.

A imagem aparece simplificada em página dupla, decorrente de uma montagem gráfica de cinco lâminas dispostas continuamente e com quatro dobras, originalmente com 15 tipos de primatas. Quando dobradas apenas seis primatas são mostrados. Veja a abaixo:

A ilustração original dobrada em página dupla mostrando seis primatas.
Imagem completa, com as cinco lâminas expostas, mostrando 15 primatas.

A ilustração invadiu a cultura popular e foi replicada, imitada, parodiada ou adaptada para fins comerciais. Veja a sequência a seguir:

Campanha publicitária de refrigerante nos EUA.
A evolução do iPhone. 

Apesar de ser tão popular e divulgar a evolução humana, a imagem incomoda alguns biólogos e frequentemente recebe críticas, incluindo grandes divulgadores da evolução como Stephen Jay Gould.

MAS QUAL O É PROBLEMA?

A imagem transmite a ideia de que a evolução é um processo unidimensional que gradual e previsivelmente transforma organismos em versões “melhores” de seus ancestrais. No caso, o Homo sapiens aparecendo como o objetivo final. Entretanto, a evolução não produz novas espécies linearmente. Na realidade, ela é semelhante a um arbusto com galhos, de tamanhos e comprimentos variados, que podem crescer em novos galhos ou serem cortados pelas tesouras de extinção.

Árvore filogenética representando alguns ramos que antecederam o Homo sapiens.

Outro problema é que a evolução não produz organismos “melhores” ou “mais evoluídos”. As espécies que emergem e sobrevivem o fazem por meio de uma combinação de adaptação ao ambiente e ao acaso, e não acumulando passivamente “melhorias” ao longo do tempo.

A versão simplificada de “A marcha do progresso” implica que cada primata é um descendente direto dos que estão atrás dele e um ancestral dos que estão à sua frente. No entanto, o texto e a linha do tempo que acompanham a ilustração original em Early Man deixam claro que essa não era a intenção do autor. O texto menciona o Ramapithecus  (o terceiro na versão simplificada) como “o mais antigo dos ancestrais do homem em linha direta” e o Oreopithecus (o segundo) como um “ramo lateral na árvore genealógica do homem”. Veja abaixo:

O texto da ilustração original deixa claro que alguns primatas, como o Ramaphitecus, correspondem à ascendência direta do Homo sapiens, ao passo que outras , como o Oreopithecus , representam um ramo lateral (veja abaixo).
Duas hipóteses filogenéticas (relações evolutivas) mostram que o Oreopithecus (indicado pela seta) consiste em um ramo distinto da ascendência do Homo sapiens.

Além disso, deve-se ressaltar que a linha do tempo, localizada na parte de cima da imagem, mostra que muitos dos primatas viviam contemporaneamente (veja nas duas primeiras figuras).

Infelizmente, a proliferação da imagem simplificada, fez surgir a interpretação equivocada de que evolução se dá de forma linear e é igual ao progresso. Esse problema de interpretação levou alguns biólogos evolucionistas, inclusive, à rejeição e sugestão de boicote de tal figura. Entretanto, deve-se ressaltar que a imagem tem sido importante para estabelecer e consolidar a teoria da evolução dentro da cultura pop. Nesse sentido, ao invés de desencorajarmos as propagação dessa imagem estabelecida, talvez valha mais a pena incentivarmos cientistas, professores e divulgadores da ciência a refinarem sua interpretação, afastando a ideia da “evolução linear e progressiva” e esclarecendo o que a imagem pretendia originalmente retratar.

Baseado e modificado do artigo “On the origins of the “March of Progress”, de Kevin Blake, 2018, Washington University ProSPER, https://sites.wustl.edu/prosper/on-the-origins-of-the-march-of-progress/

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